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Naruto RPGAkatsukiNão é o único, simplesmente o melhor!
Arco 11:
Reino de Lilith: PesadeloAno: 71DG
Após uma dura jornada, Shaka finalmente caiu e teve a maldição retirada de seu coração. No entanto, os problemas trazidos pela família Hattori não se extinguiram. Shion revelou ter ajudado a libertar Lilith, uma monarca da dimensão infernal, que agora está possuindo o corpo de Hyuga Katsura e libertando uma horda de seres infernais contra este mundo. O mundo corre risco de ser consumido pela maldade dessa criatura, mas não se o plano de Shion der certo: forçar Lilith a causar um evento chamado de O Grande Eclipse, onde as portas de todos os mundos e dimensões ficarão abertas, e assim permitir a ele ir ao submundo resgatar sua amada Katsura Grey para finalmente selar Lilith.
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[Filler] Vinte e dois. - 30/12/2019, 19:00

Parei de questionar algumas coisas depois daquela derrota vergonhosa. Meu corpo, tampouco minha mente, são os mesmos. Perdi a fome por carne humana mas isso agora se transmuta num fardo um tanto diferente. O sangue pulsa, salta ante a visão, e, embora eu não tenha sede dele, ou nenhum outro desejo macabro para substituir o canibalismo, isso me assusta. Meus olhos ardem em sangue de vez em quando e me pego com fios vermelhos escorrendo das cavas dos olhos. Sim, isso assusta também. Mesmo após ter presenciado tudo que presenciei algumas coisas, por mais mundanas que possa considerar um outro ninja, ainda me comporto como um animalzinho assustado. Sabia da existência de um homem que poderia me dar respostas, assim, fui atrás dele. Sua casa se encontrava na encosta de uma montanha, quase desafiando a gravidade com sua construção inclinada, apoiada em estacas de madeira que a distância mais pareciam finos galhos de uma árvore troncuda, mas ainda galhos. Acendi um cigarro observando do nível mais baixo aquela casa. A queda iminente me deixava nervoso, mas eu não podia fazer nada quanto àquilo, muito menos tão longe. Terminei o cigarro antes de avançar.

Subi pela encosta da montanha, usando, não uma mas várias vezes, minhas armas como apoio entre as pedras — se aquele homem tivesse de se locomover para cima e para baixo provavelmente teria preferência por uma bengala ou outro objeto que lhe desse a mesma função. O vento golpeava forte a descida e em vários momentos achei que ele fosse me derrubar, coisa preocupante agora que eu sentia-me abandonado pelas habilidades, úteis, percebi então, que acompanhavam a hedionda fome por carne humana. É estranho que uma função inerente a minha criação tenha se alterado de tal forma. Mas é como dizem, um mutação genética ou coisa que o valha. Pouco importa agora, importa menos ainda pois não posso interferir no processo feito. Um corvo veio me bicar logo que eu cheguei diante da porta, antes de bater nela. Afastei ele batendo minhas mãos contra o vento, sem real intenção de acertá-lo, mas o presságio fez subir por minha espinha um calafrio. Corvos, o que significava mesmo? Boa sorte? Morte? Se eu ao menos me lembrasse. Bati na porta e ao mínimo toque dos nós dos meus dedos a porta se abriu, empurrada para trás pelo impacto e pela brisa. A casa parecia vazia.

Hesitei. Por que motivo alguém em sã consciência entraria numa casa vazia, desconhecida, construída na encosta de uma montanha, com aquela sua aparência mórbida — por que se arriscaria contra tantas variáveis, de maneira irresponsável? Porque queria respostas. Explorei a escuridão com olhos atentos, não cedendo a vontade de ativar minha técnica ocular para tentar farejar o sangue, ou o que fosse que ela me pudesse proporcionar. Não encontrei nada nem ninguém. Lá fora o corvo deu uma bicada na porta e saiu voando, o barulho de suas penas batendo no ar ecoando de maneira macabra no interior da residência vazia. Levei, instintivamente, a mão até a espada na cintura, aquela de lâmina mais comprida, com gume em ambos os lados. Tocá-la me dava uma sensação de estranheza, como se eu tivesse desaprendido a manusear uma espada. E acho que tinha. Os dias passavam com muita rapidez e eu me encontrava inerte diante de todas as mudanças, novas gerações passavam nos testes da academia, velhos veteranos se aposentavam ou viravam professores; no meio de tudo isso eu não me tornava nada, um livro empoeirando num canto esquecido da estante.

Fiquei ainda uns momentos encarando a escuridão vazia do interior da casa, apreciando o silêncio e usando ele como aliado para pensar um pouco. Ficaria ou partiria? Talvez algumas perguntas não precisam de respostas — quem sabe sequer possuem respostas. Dei as costas, fechei a porta e dei uma boa olhada no céu ao redor. O corvo, cadê ele. Nem sinal do par de asas negras no céu azul daquela manhã de quinta-feira. Encarei a descida antes de descer de fato, preparando a lâmina da Kusanagi como bengala, cutucando algumas pedras antes de começar a me mover, para testar a integridade das mesmas. Iniciei a descida com a mesma insegurança que traçara a subida, mantendo sempre um pé firme e outro frouxo, caso precisasse rapidamente dar um salto ou coisa do tipo. Mesmo assim, meu corpo ainda era resistente o suficiente para sobreviver a uma queda. Ao menos eu esperava que o fosse. Lá embaixo avistei alguns animais ao longe, cervos ou coisa parecida. O tipo de carne que pessoas comuns, não canibais, comiam. No fim, fazia alguma diferença? Matar um ser humano ou matar um animal, dito irracional, quando todos sabiam que não era bem assim — a mentira conveniente a ser contada e aliviar o peso da culpa. Acendi outro cigarro, esperando o tempo correr um pouco.

Lembrei de cenas grotescas, um campo verde e aberto, que se estendia até esbarrar numa floresta não muito densa, com algumas árvores aqui e ali, mais populosas nas laterais, formando uma espécie de caminho ao centro. A mente viajou para dentro da trilha, ultrapassou a floresta e encarou uma infinidade de esqueletos caídos no chão, a face virada para o solo, quando ainda sobrava alguma coisa. O resto, carbonizados, perfurados por aves de rapina flamejantes. Nem mesmo o fogo me respondia mais, agora meu corpo parecia ressoar em melhor linguagem com a rocha, a terra. Havia perdido a vontade pela carne humana, o fogo deu lugar a harmonia com a terra. Que tipo de homem é Shizuke agora? Ao longe o corvo volta para meu campo de visão, batendo as asas, seu vôo declinando numa trajetória curva, até ele ficar bem próximo ao solo. Desce, pousa, bate um pouco mais as asas e deixa penas negras na terra batida, depois volta a voar e some no horizonte. Se eu pudesse voar e desaparecer no horizonte seria bom também, mas aí estava o peso de minha culpa. Tanto tempo planejando e ainda não criara a coragem, nem mesmo a reunira, para desertar.
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Re: [Filler] Vinte e dois. - 31/12/2019, 11:25

Aprovado. (UP)
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Edição de Aniversario por Shion e Senko.